Wednesday, November 9, 2011
A Blessing
A Blessing
By James Wright 1927–1980
Just off the highway to Rochester, Minnesota,
Twilight bounds softly forth on the grass.
And the eyes of those two Indian ponies
Darken with kindness.
They have come gladly out of the willows
To welcome my friend and me.
We step over the barbed wire into the pasture
Where they have been grazing all day, alone.
They ripple tensely, they can hardly contain their happiness
That we have come.
They bow shyly as wet swans. They love each other.
There is no loneliness like theirs.
At home once more,
They begin munching the young tufts of spring in the darkness.
I would like to hold the slenderer one in my arms,
For she has walked over to me
And nuzzled my left hand.
She is black and white,
Her mane falls wild on her forehead,
And the light breeze moves me to caress her long ear
That is delicate as the skin over a girl’s wrist.
Suddenly I realize
That if I stepped out of my body I would break
Into blossom.
James Wright, “A Blessing” from Above the River: The Complete Poems and Selected Prose. Copyright � 1990 by James Wright. Reprinted by permission of Wesleyan University Press.
Source: Above the River: The Complete Poems and Selected Prose (1990)
By James Wright 1927–1980
Just off the highway to Rochester, Minnesota,
Twilight bounds softly forth on the grass.
And the eyes of those two Indian ponies
Darken with kindness.
They have come gladly out of the willows
To welcome my friend and me.
We step over the barbed wire into the pasture
Where they have been grazing all day, alone.
They ripple tensely, they can hardly contain their happiness
That we have come.
They bow shyly as wet swans. They love each other.
There is no loneliness like theirs.
At home once more,
They begin munching the young tufts of spring in the darkness.
I would like to hold the slenderer one in my arms,
For she has walked over to me
And nuzzled my left hand.
She is black and white,
Her mane falls wild on her forehead,
And the light breeze moves me to caress her long ear
That is delicate as the skin over a girl’s wrist.
Suddenly I realize
That if I stepped out of my body I would break
Into blossom.
James Wright, “A Blessing” from Above the River: The Complete Poems and Selected Prose. Copyright � 1990 by James Wright. Reprinted by permission of Wesleyan University Press.
Source: Above the River: The Complete Poems and Selected Prose (1990)
pintado do natural
The Virgin and Child
by Leonardo da Vinci
(follower of)
Date Painted: after 1510
Oil on wood, 59.7 x 43.8 cm
Collection: The National Gallery, London
"...O retrato pintado do natural regressa com o Renascimento, mesmo em imagens sagradas que antes se executavam de imaginação, como continuava aliás a fazer-se seguindo "certa idea che mi viene alla mente", como dizia Rafael. A ideia, a imaginação, a memória, "sem que a mão seja guiada por uma verdade observada" (Arikha).
"Quando se deixa guiar pela observação, a mão põe-se à prova do inacessível que se encontra do outro lado, na parte oposta ao eu; e esse outro lado só é acessível por tentativas, capta-se eventualmente por entre a incerteza e opera sem se saber exactamente como, mas deixando-se levar pelo fulgor do olhar. A arte baseada na observação criam-na, sem a priori e sem apoios, o olhar e a mão a partir do natural, ou seja, "sur le motif", como dizia Cézanne. O seu objectivo não é decorar, como o ornamento, nem documentar, como a imagem, já que nasce de uma necessidade profunda de reter o vivido."
"...a pintura de observação é fruto de um olhar galvanizado por uma presença que electrizará a mão que executa o traço e que configura o desenho ou a pintura. O olhar não pode galvanizar-se só mediante o imaginário ou a memória subjectiva, porque nesse caso nada electrizará a mão. O imaginário não pode proporcionar mais do que imagens, e não traços remanescentes do vivido. A imagem não é mais do que um aspecto do quadro; o outro é a pintura, a pintura do natural."
Avigdor Arikha
encontrado aqui : http://alexandrepomar.typepad.com/alexandre_pomar/2011/11/pintura-de-observa%C3%A7%C3%A3o.html
by Leonardo da Vinci
(follower of)
Date Painted: after 1510
Oil on wood, 59.7 x 43.8 cm
Collection: The National Gallery, London
"...O retrato pintado do natural regressa com o Renascimento, mesmo em imagens sagradas que antes se executavam de imaginação, como continuava aliás a fazer-se seguindo "certa idea che mi viene alla mente", como dizia Rafael. A ideia, a imaginação, a memória, "sem que a mão seja guiada por uma verdade observada" (Arikha).
"Quando se deixa guiar pela observação, a mão põe-se à prova do inacessível que se encontra do outro lado, na parte oposta ao eu; e esse outro lado só é acessível por tentativas, capta-se eventualmente por entre a incerteza e opera sem se saber exactamente como, mas deixando-se levar pelo fulgor do olhar. A arte baseada na observação criam-na, sem a priori e sem apoios, o olhar e a mão a partir do natural, ou seja, "sur le motif", como dizia Cézanne. O seu objectivo não é decorar, como o ornamento, nem documentar, como a imagem, já que nasce de uma necessidade profunda de reter o vivido."
"...a pintura de observação é fruto de um olhar galvanizado por uma presença que electrizará a mão que executa o traço e que configura o desenho ou a pintura. O olhar não pode galvanizar-se só mediante o imaginário ou a memória subjectiva, porque nesse caso nada electrizará a mão. O imaginário não pode proporcionar mais do que imagens, e não traços remanescentes do vivido. A imagem não é mais do que um aspecto do quadro; o outro é a pintura, a pintura do natural."
Avigdor Arikha
encontrado aqui : http://alexandrepomar.typepad.com/alexandre_pomar/2011/11/pintura-de-observa%C3%A7%C3%A3o.html
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Leonardo da Vinci
Tuesday, November 8, 2011
sem titulo
Um dia olhas no espelho quotidiano e sabes que estás velho,
Como pode isso ter acontecido, assim de um dia para o outro ?
Ainda ontem, batias na cara sorridente depois do barbear,
Olhos brilhantes e ganas de sair, abraçar o dia…
Hoje estás velho , as peles caem sobre os olhos,
O sorriso cava vales fundos na cara e não sabes mais onde ir
Isto não levou um dia a acontecer, aconteceu um dia a seguir ao outro
E tu palerma, olhavas o espelho e nada vias…
Diz o padre para o menos padre :
“- Não interessa aquilo que tu és, padre ou não padre,
Interessam as escolhas que tu fazes e como tu as defendes…”
(sabedoria avulsa de cinema de matiné)
Como pode isso ter acontecido, assim de um dia para o outro ?
Ainda ontem, batias na cara sorridente depois do barbear,
Olhos brilhantes e ganas de sair, abraçar o dia…
Hoje estás velho , as peles caem sobre os olhos,
O sorriso cava vales fundos na cara e não sabes mais onde ir
Isto não levou um dia a acontecer, aconteceu um dia a seguir ao outro
E tu palerma, olhavas o espelho e nada vias…
Diz o padre para o menos padre :
“- Não interessa aquilo que tu és, padre ou não padre,
Interessam as escolhas que tu fazes e como tu as defendes…”
(sabedoria avulsa de cinema de matiné)
Em minha casa há muito tempo
Em minha casa há muito tempo, havia uma lata onde se guardavam as coisas de costura. Era uma lata bonita, decorada a dourados, mesmo na altura já um pouco desmaiados, tinha cenas nocturnas, talvez evocação de uma saída à Ópera...nem me lembro bem, mas foi assim que comecei a gostar de coisas belas e fora do meu alcance...
thousands
"For I do not exist: there exist but the thousands of mirrors that reflect me. With every acquaintance I make, the population of phantoms resembling me increases. Somewhere they live, somewhere they multiply. I alone do not exist."
Nabokov, The Eye
found here : http://assemblage2011.tumblr.com/post/11047806512/for-i-do-not-exist-there-exist-but-the-thousands
Nabokov, The Eye
found here : http://assemblage2011.tumblr.com/post/11047806512/for-i-do-not-exist-there-exist-but-the-thousands
Monday, November 7, 2011
Friday, November 4, 2011
love this
Vintage Photographs - Today’s Adventure: Ingrid Bergman is captured by Gordon Parks while making Stromboli (1949)
Labels:
Gordon Parks,
Ingrid Bergman
Thursday, November 3, 2011
Turner prize
The Back that used to be The Front, 2008
Photograph: George Shaw/Courtesy Wilkinson Gallery, London
Check out more, here :
http://www.guardian.co.uk/artanddesign/gallery/2011/feb/13/art-george-shaw-in-pictures#/?picture=371659398&index=9
Wednesday, October 26, 2011
Tuesday, October 25, 2011
power issue
“The most common way people give up their power
is by thinking they don’t have any.”
~ Alice Walker
Quote shown at the beginning of “Miss Representation”
is by thinking they don’t have any.”
~ Alice Walker
Quote shown at the beginning of “Miss Representation”
Monday, October 24, 2011
you have to be practical
"Yeah. I go to my subconsciousness. I have to go into that chaos. But the act of going and coming back is kind of routine. You have to be practical. So every time I say, if you want to write a novel you have to be practical, people get bored. They are disappointed." He laughs again. "They are expecting a more dynamic, creative, artistic thing to say. What I want to say is: you have to be practical."
Murakami on writing novels
found here : http://www.guardian.co.uk/books/2011/oct/14/haruki-murakami-1q84?fb=native&CMP=FBCNETTXT9038
Sunday, October 23, 2011
Fire Graffiti
Fire Graffiti
Throughout those dismal months my life was only sparked alight
when I made love to you.
As the firefly ignites and fades, ignites and fades, we follow the flashes
of its flight in the dark among the olive trees.
Throughout those dismal months, my soul sat slumped and lifeless
but my body walked to yours.
The night sky was lowing.
We milked the cosmos secretly, and survived.
Tomas Tranströmer
Throughout those dismal months my life was only sparked alight
when I made love to you.
As the firefly ignites and fades, ignites and fades, we follow the flashes
of its flight in the dark among the olive trees.
Throughout those dismal months, my soul sat slumped and lifeless
but my body walked to yours.
The night sky was lowing.
We milked the cosmos secretly, and survived.
Tomas Tranströmer
I really like this blog
Georgia O’ Keeffe and Orville Cox - Ansel Adams, 1937
The Blog :
http://theimpossiblecool.tumblr.com/
Friday, October 21, 2011
Love is the seventh wave
Pequenos dias passam cheios de grandes dramas
expectante no mar, esperas a onda
o momento certo de ganhares o impulso
e de te ergueres, deslizando vertiginoso
triunfante, como a espuma ou o vento
a gaivota que grita sobre a praia
Thursday, October 20, 2011
Venetian Horses
"One of the most famous features of the church is the Triumphal Guadriga, or Horses of St. Mark. You can see them above the central door and largest arch in the picture above, 4 huge bronze horses. (Today, the ones you see are copies, and the real ones are protected inside the church.) They were brought here from Constantinople in 1204 after Venetian soldiers in the 4th crusade sacked the city. They are old, and were part of a huge Roman complex there since ancient times. Debate rages on if they were made in ancient Greece or as a Roman copy, but either way, they are some of the only ancient bronze statues to survive to today. Napoleon liked them so much that he took them to Paris in 1797, but they were returned years later."
Wednesday, October 19, 2011
Tuesday, October 18, 2011
AntiCrise
o amor é uma conspiração
uma teia bem urdida que agarra o verão
impede as folhas das árvores de amarelecerem
os dias de encolherem
o amor é uma conspiração
para trazer a felicidade ás ruas
levar as flores a todo o lado
sur les pavés...
Júlio Pomar - Maio de 1968 (CRS - SS) II, 1968 - Acrílico sobre tela, 97 x 130 - Coleção de Jorge de Brito (Cascais - Portugal)
Dizzy
Dizzy
sometimes I feel so dizzy
Things go so fast, light shifts and colors mix
I walk the streets trying to make sense of things
Look for meanings on scribbles covering walls
Noise, meaningless, void.
Trash passing for currency.
A pretty woman in a TV show
Doesn’t know where Africa is,
Doesn’t know anything different from the price of things
or where to get the next euro, the next kick.
Lost all is lost
and this feeling makes our bones soft, our wills melt
No judgment, no reason, no purpose.
Our ancient name is Europa
Our old rule is Democracia.
It flows, it flows where it goes
Nobody knows, nobody knows.
sometimes I feel so dizzy
Things go so fast, light shifts and colors mix
I walk the streets trying to make sense of things
Look for meanings on scribbles covering walls
Noise, meaningless, void.
Trash passing for currency.
A pretty woman in a TV show
Doesn’t know where Africa is,
Doesn’t know anything different from the price of things
or where to get the next euro, the next kick.
Lost all is lost
and this feeling makes our bones soft, our wills melt
No judgment, no reason, no purpose.
Our ancient name is Europa
Our old rule is Democracia.
It flows, it flows where it goes
Nobody knows, nobody knows.
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Our ancient name is Europa
Monday, October 17, 2011
Why don't you touch me ?
"...
She's a lady, she's got time
Brush back your hair
And let me get to know your face
She's a lady, she is mine
Brush back your hair
And let me get to know your flesh
I've been waiting here for so long
And all the time that passed me by
It doesn't seem to matter now
You stand there with your
fixed expression
Casting doubt on all I have to say
Why don't you touch me, touch me
Why don't you touch me, touch me
Touch me now, now, now, now, now
Now, now, now, now, now
Now, now, now, now, now
Now, now, now, now, now ..."
Genesis, The Musical Box
Friday, October 14, 2011
todo o mundo é um palco...
imagem de Jorge Molder
http://www.spq.pt/boletim/docs/boletimSPQ_102_045_07.pdf
http://www.mnhn.ul.pt/portal/page?_pageid=418,1391237&_dad=portal&_schema=PORTAL
http://www.spq.pt/boletim/docs/boletimSPQ_102_045_07.pdf
http://www.mnhn.ul.pt/portal/page?_pageid=418,1391237&_dad=portal&_schema=PORTAL
Thursday, October 13, 2011
Wednesday, October 12, 2011
once de Kooning was a stowaway in a boat to America...
A Tree in Naples
Willem de Kooning (American, born the Netherlands. 1904-1997)
1960. Oil on canvas, 6' 8 1/4" x 70 1/8" (203.7 x 178.1 cm). The Sidney and Harriet Janis Collection. © 2011 The Willem de Kooning Foundation / Artists Rights Society (ARS), New York
"This work belongs to a group of abstractions inspired by the landscape. In them de Kooning simplified his visual vocabulary to a few powerful, expansive brushstrokes that evoke the vistas of color found in the natural world. He described the experience that inspired these works: “Just coming around roads, some place, and having the sensation of a piece of it, a piece of nature, like a fence, something on the road. … And I really get very elated by again looking, by again seeing that the sky is blue, that the grass is green.”"
Willem de Kooning (American, born the Netherlands. 1904-1997)
1960. Oil on canvas, 6' 8 1/4" x 70 1/8" (203.7 x 178.1 cm). The Sidney and Harriet Janis Collection. © 2011 The Willem de Kooning Foundation / Artists Rights Society (ARS), New York
"This work belongs to a group of abstractions inspired by the landscape. In them de Kooning simplified his visual vocabulary to a few powerful, expansive brushstrokes that evoke the vistas of color found in the natural world. He described the experience that inspired these works: “Just coming around roads, some place, and having the sensation of a piece of it, a piece of nature, like a fence, something on the road. … And I really get very elated by again looking, by again seeing that the sky is blue, that the grass is green.”"
Monday, October 10, 2011
Tuesday, October 4, 2011
Monday, October 3, 2011
sobreviver ao deserto
Há montes de gente bonita, por aí
Tem de ser uma coisa boa, não tem ?
Como um sinal ou um augúrio
como aquilo que os romanos procuravam no voo das aves,
Ou nas entranhas dos animais sacrificados…
Cada dia sem ti, é um deserto sem fim.
O tempo costumava ser fácil e simpático,
Tal qual uma boa loja, daquelas com corredores largos
E um sitio para cada coisa…
eu seguia-te para todo o lado tu decidias o que havíamos de levar.
Até que te foste sem mim.
Cada dia sem ti, é um deserto sem fim.
Eu enrolo-me num canto,
Os meus ombros fecham-se sobre o peito
Esmagados pelo peso de asas que já não tenho,
Tu levaste a minha capacidade de voar…e a vontade também.
Os desertos são lugares enganadores,
À primeira vista tudo parece igual e imutável,
Mas quando nos encontramos neles, descobrimos como tudo
Não pára de mudar.
Só há uma maneira de sobreviver ao deserto e é saindo dele.
(o que vale para ti, tem de valer para mim também).
Tem de ser uma coisa boa, não tem ?
Como um sinal ou um augúrio
como aquilo que os romanos procuravam no voo das aves,
Ou nas entranhas dos animais sacrificados…
Cada dia sem ti, é um deserto sem fim.
O tempo costumava ser fácil e simpático,
Tal qual uma boa loja, daquelas com corredores largos
E um sitio para cada coisa…
eu seguia-te para todo o lado tu decidias o que havíamos de levar.
Até que te foste sem mim.
Cada dia sem ti, é um deserto sem fim.
Eu enrolo-me num canto,
Os meus ombros fecham-se sobre o peito
Esmagados pelo peso de asas que já não tenho,
Tu levaste a minha capacidade de voar…e a vontade também.
Os desertos são lugares enganadores,
À primeira vista tudo parece igual e imutável,
Mas quando nos encontramos neles, descobrimos como tudo
Não pára de mudar.
Só há uma maneira de sobreviver ao deserto e é saindo dele.
(o que vale para ti, tem de valer para mim também).
I just love Haruki Murakami
“I think most people live in a fiction. I’m no exception. Think of it in terms of a car’s transmission. It’s like a transmission that stands between you and the harsh realities of life. You take the raw power from outside and use gears to adjust it so everything’s all nicely in sync. That’s how you keep your fragile body intact.”
from Sputnik Sweetheart by Haruki Murakami
from Sputnik Sweetheart by Haruki Murakami
Saturday, October 1, 2011
não sou daqui e serei breve
Na extrema do terreno os restos de uma árvore vão-se agora cobrindo de trepadeiras,
No caminho uma avó baixa-se e pega na neta,
A menina abandona-se nos seus braços, confortável e feliz
Nas árvores os dióspiros amadurecem carnudos,
Cantam pássaros aqui e ali,
No céu dissipam-se os rastos dos aviões que voam alto e para longe
Eu sorrio,
Não sou daqui, não, não sou daqui e não demoro
venho aqui coleccionar memórias.
No caminho uma avó baixa-se e pega na neta,
A menina abandona-se nos seus braços, confortável e feliz
Nas árvores os dióspiros amadurecem carnudos,
Cantam pássaros aqui e ali,
No céu dissipam-se os rastos dos aviões que voam alto e para longe
Eu sorrio,
Não sou daqui, não, não sou daqui e não demoro
venho aqui coleccionar memórias.
Friday, September 30, 2011
Aussie
Cockspur Bush
I am lived. I am died.
I was two-leafed three times, and grazed,
but then I was stemmed and multiplied,
sharp-thorned and caned, nested and raised,
earth-salt by sun-sugar. I was innerly sung
by thrushes who need fear no eyed skin thing.
Finched, ant-run, flowered, I am given the years
in now fewer berries, now more of sling
out over directions of luscious dung.
Of water crankshaft, of gases the gears
my shape is cattle-pruned to a crown spread sprung
above the starve-gut instinct to make prairies
of everywhere. My thorns are stuck with caries
of mice and rank lizards by the butcher bird.
Inches in, baby seed-screamers get supplied.
I am lived and died in, vine woven, multiplied.
from
Translations from the Natural World, 1992
I am lived. I am died.
I was two-leafed three times, and grazed,
but then I was stemmed and multiplied,
sharp-thorned and caned, nested and raised,
earth-salt by sun-sugar. I was innerly sung
by thrushes who need fear no eyed skin thing.
Finched, ant-run, flowered, I am given the years
in now fewer berries, now more of sling
out over directions of luscious dung.
Of water crankshaft, of gases the gears
my shape is cattle-pruned to a crown spread sprung
above the starve-gut instinct to make prairies
of everywhere. My thorns are stuck with caries
of mice and rank lizards by the butcher bird.
Inches in, baby seed-screamers get supplied.
I am lived and died in, vine woven, multiplied.
from
Translations from the Natural World, 1992
Cantiga
Deixa-te estar na minha vida
Como um navio sobre o mar.
Se o vento sopra e rasga as velas
E a noite é gélida e comprida
E a voz ecoa das procelas,
Deixa-te estar na minha vida.
Se erguem as ondas mãos de espuma
Aos céus, em cólera incontida,
E o ar se tolda e cresce a bruma,
Deixa-te estar na minha vida.
À praia, um dia, erma e esquecida,
Hei, com amor, de te levar.
Deixa-te estar na minha vida.
Como um navio sobre o mar.
João Cabral do Nascimento (Poeta português, 1887-1978)
Como um navio sobre o mar.
Se o vento sopra e rasga as velas
E a noite é gélida e comprida
E a voz ecoa das procelas,
Deixa-te estar na minha vida.
Se erguem as ondas mãos de espuma
Aos céus, em cólera incontida,
E o ar se tolda e cresce a bruma,
Deixa-te estar na minha vida.
À praia, um dia, erma e esquecida,
Hei, com amor, de te levar.
Deixa-te estar na minha vida.
Como um navio sobre o mar.
João Cabral do Nascimento (Poeta português, 1887-1978)
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João Cabral do Nascimento
this is the end of September...
interview here :
http://www.augustman.com/2011/09/12/interview-with-michael-arad-architect-of-the-911-memorial/
Thursday, September 29, 2011
Monday, September 26, 2011
Thursday, September 22, 2011
Wednesday, September 21, 2011
Tuesday, September 20, 2011
Wednesday, September 14, 2011
very good read indeed...
"This strangest of islands, I thought, as I looked out to sea, this island that turned in on itself, and from which water had been banished. The shore was a carapace, permeable only at certain selected points. Where in this riverine city could one fully sense a riverbank? Everything was built up, in concrete and stone, and the millions who lived on the tiny interior had scant sense about what flowed around them. The water was a kind of embarrassing secret, the unloved daughter, neglected, while the parks were doted on, fussed over, overused."
found in Teju Cole "Open City", which I recommend
Read more http://www.newyorker.com/arts/critics/books/2011/02/28/110228crbo_books_wood#ixzz1XwahtuPx
found in Teju Cole "Open City", which I recommend
Read more http://www.newyorker.com/arts/critics/books/2011/02/28/110228crbo_books_wood#ixzz1XwahtuPx
Monday, September 12, 2011
Naufrágio em Zanzibar
Naufrágio em Zanzibar
O grande barco de cruzeiro eleva-se vários pisos acima da rua,
No passeio, à minha frente caminha uma mulher de longas pernas muito brancas,
Ela entra no autocarro descoberto que lhe vai mostrar a cidade
Eu desço para o metro e mais um dia de trabalho.
Quando era pequeno gostava de coleccionar nomes de terras e bandeiras
Dizer aqueles nomes, saber nomear aquelas bandeiras
Enchia-me de prazer, dava-me vontade de conhecer o mundo
Então havia a guerra, a guerra era uma forma de conhecer o mundo
Por via do desconhecimento mais brutal, penso eu agora,
Mas na altura era uma coisa que acontecia aos rapazes como eu.
Penso nisto enquanto o comboio do metro
Serpenteia pelo caro túnel, construído debaixo do rio
Debaixo da cidade histórica,
Á superfície é dia claro e quente
Manhã de verão, Lisboa arranca para um novo dia, lento e triste
Como este tempo de cansaços e decepções.
Naufrágio em Zanzibar dizem os jornais.
O grande barco de cruzeiro eleva-se vários pisos acima da rua,
No passeio, à minha frente caminha uma mulher de longas pernas muito brancas,
Ela entra no autocarro descoberto que lhe vai mostrar a cidade
Eu desço para o metro e mais um dia de trabalho.
Quando era pequeno gostava de coleccionar nomes de terras e bandeiras
Dizer aqueles nomes, saber nomear aquelas bandeiras
Enchia-me de prazer, dava-me vontade de conhecer o mundo
Então havia a guerra, a guerra era uma forma de conhecer o mundo
Por via do desconhecimento mais brutal, penso eu agora,
Mas na altura era uma coisa que acontecia aos rapazes como eu.
Penso nisto enquanto o comboio do metro
Serpenteia pelo caro túnel, construído debaixo do rio
Debaixo da cidade histórica,
Á superfície é dia claro e quente
Manhã de verão, Lisboa arranca para um novo dia, lento e triste
Como este tempo de cansaços e decepções.
Naufrágio em Zanzibar dizem os jornais.
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Naufrágio em Zanzibar
Friday, September 9, 2011
Tuesday, September 6, 2011
SMS for the future
"The poem is a form of texting ... it's the original text," says Carol Ann Duffy. "It's a perfecting of a feeling in language – it's a way of saying more with less, just as texting is. We've got to realise that the Facebook generation is the future – and, oddly enough, poetry is the perfect form for them. It's a kind of time capsule – it allows feelings and ideas to travel big distances in a very condensed form."
seen here :
http://www.guardian.co.uk/education/2011/sep/05/carol-ann-duffy-poetry-texting-competition
seen here :
http://www.guardian.co.uk/education/2011/sep/05/carol-ann-duffy-poetry-texting-competition
Friday, September 2, 2011
Composition VIII
Composition VIII
1923 (140 Kb); Oil on canvas, 140 x 201 cm (55 1/8 x 79 1/8 in); Solomon R. Guggenheim Museum, New York
What Work Is
What Work Is
We stand in the rain in a long line
waiting at Ford Highland Park. For work.
You know what work is--if you're
old enough to read this you know what
work is, although you may not do it.
Forget you. This is about waiting,
shifting from one foot to another.
Feeling the light rain falling like mist
into your hair, blurring your vision
until you think you see your own brother
ahead of you, maybe ten places.
You rub your glasses with your fingers,
and of course it's someone else's brother,
narrower across the shoulders than
yours but with the same sad slouch, the grin
that does not hide the stubbornness,
the sad refusal to give in to
rain, to the hours wasted waiting,
to the knowledge that somewhere ahead
a man is waiting who will say, "No,
we're not hiring today," for any
reason he wants. You love your brother,
now suddenly you can hardly stand
the love flooding you for your brother,
who's not beside you or behind or
ahead because he's home trying to
sleep off a miserable night shift
at Cadillac so he can get up
before noon to study his German.
Works eight hours a night so he can sing
Wagner, the opera you hate most,
the worst music ever invented.
How long has it been since you told him
you loved him, held his wide shoulders,
opened your eyes wide and said those words,
and maybe kissed his cheek? You've never
done something so simple, so obvious,
not because you're too young or too dumb,
not because you're jealous or even mean
or incapable of crying in
the presence of another man, no,
just because you don't know what work is.
"...No one knows where poetry comes from…"
We stand in the rain in a long line
waiting at Ford Highland Park. For work.
You know what work is--if you're
old enough to read this you know what
work is, although you may not do it.
Forget you. This is about waiting,
shifting from one foot to another.
Feeling the light rain falling like mist
into your hair, blurring your vision
until you think you see your own brother
ahead of you, maybe ten places.
You rub your glasses with your fingers,
and of course it's someone else's brother,
narrower across the shoulders than
yours but with the same sad slouch, the grin
that does not hide the stubbornness,
the sad refusal to give in to
rain, to the hours wasted waiting,
to the knowledge that somewhere ahead
a man is waiting who will say, "No,
we're not hiring today," for any
reason he wants. You love your brother,
now suddenly you can hardly stand
the love flooding you for your brother,
who's not beside you or behind or
ahead because he's home trying to
sleep off a miserable night shift
at Cadillac so he can get up
before noon to study his German.
Works eight hours a night so he can sing
Wagner, the opera you hate most,
the worst music ever invented.
How long has it been since you told him
you loved him, held his wide shoulders,
opened your eyes wide and said those words,
and maybe kissed his cheek? You've never
done something so simple, so obvious,
not because you're too young or too dumb,
not because you're jealous or even mean
or incapable of crying in
the presence of another man, no,
just because you don't know what work is.
"...No one knows where poetry comes from…"
Wednesday, August 31, 2011
TABACARIA
Álvaro de Campos
TABACARIA
(15-1-1928)
Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.
Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
(E se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
Com a morte a pôr humidade nas paredes e cabelos brancos nos homens,
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.
Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
E não tivesse mais irmandade com as coisas
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
De dentro da minha cabeça,
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.
Estou hoje perplexo como quem pensou e achou e esqueceu.
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.
Falhei em tudo.
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
A aprendizagem que me deram,
Desci dela pela janela das traseiras da casa,
Fui até ao campo com grandes propósitos.
Mas lá encontrei só ervas e árvores,
E quando havia gente era igual à outra.
Saio da janela, sento-me numa cadeira. Em que hei-de pensar?
Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
Ser o que penso? Mas penso ser tanta coisa!
E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!
Génio? Neste momento
Cem mil cérebros se concebem em sonho génios como eu,
E a história não marcará, quem sabe?, nem um,
Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.
Não, não creio em mim.
Em todos os manicómios há doidos malucos com tantas certezas!
Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?
Não, nem em mim...
Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo
Não estão nesta hora génios-para-si-mesmos sonhando?
Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas -
Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas -,
E quem sabe se realizáveis,
Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente?
O mundo é para quem nasce para o conquistar
E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.
Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.
Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo,
Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.
Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,
Ainda que não more nela;
Serei sempre o que não nasceu para isso;
Serei sempre só o que tinha qualidades;
Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta
E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira,
E ouviu a voz de Deus num poço tapado.
Crer em mim? Não, nem em nada.
Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente
O seu sol, a sua chuva, o vento que me acha o cabelo,
E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha.
Escravos cardíacos das estrelas,
Conquistámos todo o mundo antes de nos levantar da cama;
Mas acordámos e ele é opaco,
Levantámo-nos e ele é alheio,
Saímos de casa e ele é a terra inteira,
Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido.
(Come chocolates, pequena;
Come chocolates!
Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
Come, pequena suja, come!
Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!
Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folhas de estanho,
Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)
Mas ao menos fica da amargura do que nunca serei
A caligrafia rápida destes versos,
Pórtico partido para o Impossível.
Mas ao menos consagro a mim mesmo um desprezo sem lágrimas,
Nobre ao menos no gesto largo com que atiro
A roupa suja que sou, sem rol, pra o decurso das coisas,
E fico em casa sem camisa.
(Tu, que consolas, que não existes e por isso consolas,
Ou deusa grega, concebida como estátua que fosse viva,
Ou patrícia romana, impossivelmente nobre e nefasta,
Ou princesa de trovadores, gentilíssima e colorida,
Ou marquesa do século dezoito, decotada e longínqua,
Ou cocote célebre do tempo dos nossos pais,
Ou não sei quê moderno - não concebo bem o quê -,
Tudo isso, seja o que for, que sejas, se pode inspirar que inspire!
Meu coração é um balde despejado.
Como os que invocam espíritos invocam espíritos invoco
A mim mesmo e não encontro nada.
Chego à janela e vejo a rua com uma nitidez absoluta.
Vejo as lojas, vejo os passeios, vejo os carros que passam,
Vejo os entes vivos vestidos que se cruzam,
Vejo os cães que também existem,
E tudo isto me pesa como uma condenação ao degredo,
E tudo isto é estrangeiro, como tudo.)
Vivi, estudei, amei, e até cri,
E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu.
Olho a cada um os andrajos e as chagas e a mentira,
E penso: talvez nunca vivesses nem estudasses nem amasses nem cresses
(Porque é possível fazer a realidade de tudo isso sem fazer nada disso);
Talvez tenhas existido apenas, como um lagarto a quem cortam o rabo
E que é rabo para aquém do lagarto remexidamente.
Fiz de mim o que não soube,
E o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho,
Já tinha envelhecido.
Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.
Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
Como um cão tolerado pela gerência
Por ser inofensivo
E vou escrever esta história para provar que sou sublime.
Essência musical dos meus versos inúteis,
Quem me dera encontrar-te como coisa que eu fizesse,
E não ficasse sempre defronte da Tabacaria de defronte,
Calcando aos pés a consciência de estar existindo,
Como um tapete em que um bêbado tropeça
Ou um capacho que os ciganos roubaram e não valia nada.
Mas o dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta.
Olhou-o com o desconforto da cabeça mal voltada
E com o desconforto da alma mal-entendendo.
Ele morrerá e eu morrerei.
Ele deixará a tabuleta, e eu deixarei versos.
A certa altura morrerá a tabuleta também, e os versos também.
Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta,
E a língua em que foram escritos os versos.
Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu.
Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente
Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas,
Sempre uma coisa defronte da outra,
Sempre uma coisa tão inútil como a outra,
Sempre o impossível tão estúpido como o real,
Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono de mistério da superfície,
Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra.
Mas um homem entrou na Tabacaria (para comprar tabaco?),
E a realidade plausível cai de repente em cima de mim.
Semiergo-me enérgico, convencido, humano,
E vou tencionar escrever estes versos em que digo o contrário.
Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los
E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos.
Sigo o fumo como uma rota própria,
E gozo, num momento sensitivo e competente,
A libertação de todas as especulações
E a consciência de que a metafísica é uma consequência de estar mal disposto.
Depois deito-me para trás na cadeira
E continuo fumando.
Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando.
(Se eu casasse com a filha da minha lavadeira
Talvez fosse feliz.)
Visto isto, levanto-me da cadeira. Vou à janela.
O homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?).
Ah, conheço-o: é o Esteves sem metafísica.
(O dono da Tabacaria chegou à porta.)
Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me.
Acenou-me adeus gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo
Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o dono da Tabacaria sorriu.
english version here :
http://www.historia.com.pt/portuguese/F_Pessoa/Tabacaria/Tabacaria.htm
TABACARIA
(15-1-1928)
Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.
Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
(E se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
Com a morte a pôr humidade nas paredes e cabelos brancos nos homens,
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.
Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
E não tivesse mais irmandade com as coisas
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
De dentro da minha cabeça,
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.
Estou hoje perplexo como quem pensou e achou e esqueceu.
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.
Falhei em tudo.
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
A aprendizagem que me deram,
Desci dela pela janela das traseiras da casa,
Fui até ao campo com grandes propósitos.
Mas lá encontrei só ervas e árvores,
E quando havia gente era igual à outra.
Saio da janela, sento-me numa cadeira. Em que hei-de pensar?
Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
Ser o que penso? Mas penso ser tanta coisa!
E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!
Génio? Neste momento
Cem mil cérebros se concebem em sonho génios como eu,
E a história não marcará, quem sabe?, nem um,
Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.
Não, não creio em mim.
Em todos os manicómios há doidos malucos com tantas certezas!
Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?
Não, nem em mim...
Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo
Não estão nesta hora génios-para-si-mesmos sonhando?
Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas -
Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas -,
E quem sabe se realizáveis,
Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente?
O mundo é para quem nasce para o conquistar
E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.
Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.
Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo,
Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.
Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,
Ainda que não more nela;
Serei sempre o que não nasceu para isso;
Serei sempre só o que tinha qualidades;
Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta
E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira,
E ouviu a voz de Deus num poço tapado.
Crer em mim? Não, nem em nada.
Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente
O seu sol, a sua chuva, o vento que me acha o cabelo,
E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha.
Escravos cardíacos das estrelas,
Conquistámos todo o mundo antes de nos levantar da cama;
Mas acordámos e ele é opaco,
Levantámo-nos e ele é alheio,
Saímos de casa e ele é a terra inteira,
Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido.
(Come chocolates, pequena;
Come chocolates!
Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
Come, pequena suja, come!
Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!
Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folhas de estanho,
Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)
Mas ao menos fica da amargura do que nunca serei
A caligrafia rápida destes versos,
Pórtico partido para o Impossível.
Mas ao menos consagro a mim mesmo um desprezo sem lágrimas,
Nobre ao menos no gesto largo com que atiro
A roupa suja que sou, sem rol, pra o decurso das coisas,
E fico em casa sem camisa.
(Tu, que consolas, que não existes e por isso consolas,
Ou deusa grega, concebida como estátua que fosse viva,
Ou patrícia romana, impossivelmente nobre e nefasta,
Ou princesa de trovadores, gentilíssima e colorida,
Ou marquesa do século dezoito, decotada e longínqua,
Ou cocote célebre do tempo dos nossos pais,
Ou não sei quê moderno - não concebo bem o quê -,
Tudo isso, seja o que for, que sejas, se pode inspirar que inspire!
Meu coração é um balde despejado.
Como os que invocam espíritos invocam espíritos invoco
A mim mesmo e não encontro nada.
Chego à janela e vejo a rua com uma nitidez absoluta.
Vejo as lojas, vejo os passeios, vejo os carros que passam,
Vejo os entes vivos vestidos que se cruzam,
Vejo os cães que também existem,
E tudo isto me pesa como uma condenação ao degredo,
E tudo isto é estrangeiro, como tudo.)
Vivi, estudei, amei, e até cri,
E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu.
Olho a cada um os andrajos e as chagas e a mentira,
E penso: talvez nunca vivesses nem estudasses nem amasses nem cresses
(Porque é possível fazer a realidade de tudo isso sem fazer nada disso);
Talvez tenhas existido apenas, como um lagarto a quem cortam o rabo
E que é rabo para aquém do lagarto remexidamente.
Fiz de mim o que não soube,
E o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho,
Já tinha envelhecido.
Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.
Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
Como um cão tolerado pela gerência
Por ser inofensivo
E vou escrever esta história para provar que sou sublime.
Essência musical dos meus versos inúteis,
Quem me dera encontrar-te como coisa que eu fizesse,
E não ficasse sempre defronte da Tabacaria de defronte,
Calcando aos pés a consciência de estar existindo,
Como um tapete em que um bêbado tropeça
Ou um capacho que os ciganos roubaram e não valia nada.
Mas o dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta.
Olhou-o com o desconforto da cabeça mal voltada
E com o desconforto da alma mal-entendendo.
Ele morrerá e eu morrerei.
Ele deixará a tabuleta, e eu deixarei versos.
A certa altura morrerá a tabuleta também, e os versos também.
Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta,
E a língua em que foram escritos os versos.
Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu.
Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente
Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas,
Sempre uma coisa defronte da outra,
Sempre uma coisa tão inútil como a outra,
Sempre o impossível tão estúpido como o real,
Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono de mistério da superfície,
Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra.
Mas um homem entrou na Tabacaria (para comprar tabaco?),
E a realidade plausível cai de repente em cima de mim.
Semiergo-me enérgico, convencido, humano,
E vou tencionar escrever estes versos em que digo o contrário.
Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los
E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos.
Sigo o fumo como uma rota própria,
E gozo, num momento sensitivo e competente,
A libertação de todas as especulações
E a consciência de que a metafísica é uma consequência de estar mal disposto.
Depois deito-me para trás na cadeira
E continuo fumando.
Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando.
(Se eu casasse com a filha da minha lavadeira
Talvez fosse feliz.)
Visto isto, levanto-me da cadeira. Vou à janela.
O homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?).
Ah, conheço-o: é o Esteves sem metafísica.
(O dono da Tabacaria chegou à porta.)
Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me.
Acenou-me adeus gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo
Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o dono da Tabacaria sorriu.
english version here :
http://www.historia.com.pt/portuguese/F_Pessoa/Tabacaria/Tabacaria.htm
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Fernando Pessoa
Saturday, August 27, 2011
Poison d'Avril
There was a time when you could find postcards of almost anything or anyplace,
you even had the most appropriate postcard for every occasion.
There was a time when sending a postcard,
or receiving one for that matter, meant a great deal...
it wasn't so much that you believed in postcards,
that you believed in what they depicted, it was more that
you enjoyed chasing for the right one before sending,
or you appreciated the gesture and took pleasure from it when receiving one.
Sending and receiving postcards were what one was supposed to do then.
(I guess there's still people paying good money for postcards and collecting them, but it's not the same, is it ?)
Funny I found this :
http://www.nybooks.com/blogs/nyrblog/2011/aug/02/what-ever-happened-summer-postcards/
you even had the most appropriate postcard for every occasion.
There was a time when sending a postcard,
or receiving one for that matter, meant a great deal...
it wasn't so much that you believed in postcards,
that you believed in what they depicted, it was more that
you enjoyed chasing for the right one before sending,
or you appreciated the gesture and took pleasure from it when receiving one.
Sending and receiving postcards were what one was supposed to do then.
(I guess there's still people paying good money for postcards and collecting them, but it's not the same, is it ?)
Funny I found this :
http://www.nybooks.com/blogs/nyrblog/2011/aug/02/what-ever-happened-summer-postcards/
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Poison d'Avril,
postcards
Wednesday, August 24, 2011
o pregado
De que escrevo eu
Da comida, do sabor que fica.
Se seguida, dos convidados, que aparecem sem o ter sido
ou que chegaram com quase um século de atraso.
Do desejo da cavala por limão espremido.
Mais do que qualquer outro peixe escrevo do pregado.
Escrevo da abundância.
Do jejum e da razão por que os comilões a inventaram.
Do valor nutritivo das côdeas vindas da mesa dos ricos.
Da gordura e dos excrementos e do sal e da escassez.
de como o espírito se tornou amargo que nem bílis
e a barriga ficou demente,
irei eu — no meio de um monte coberto de milho-miúdo —
descrever de modo instrutivo.
Escrevo do seio
É da gravidez de Ilsebill (os desejos de pepinos em conserva)
que vou escrever enquanto esta durar.
Da última dentadinha com ela partilhada,
da hora passada com um amigo
entre fatias de pão, queijo, nozes e vinho.
(Guturalmente, conversámos de deus e do mundo
e sobre o empanturrar-se, que mais não é senão medo.)
Escrevo da fome, de como esta foi descrita
e dissiminada por escrito.
É de especiarias (quando Vasco da Gama e eu
tornámos a pimenta mais barata)
que eu, de viagem rumo a Calcutá, quero escrever.
Carne crua e cozinhada, que amolece, se desfia, atrofia e se desfaz.
As papas quotidianas,
seja o que for que já antes foi mastigado: história datada,
as chacinas de Tannenberg Wittstock Kolin,
o que resta, é disso que tomo nota:
ossos, cascas, entranhas e chouriços.
Da repugnância diante de um prato cheio,
daquilo que sabe bem,
do leite (como este coalha),
da beterraba, da couve; da vitória da batata
escreverei amanhã,
ou depois dos restos de ontem
se tornarem os de hoje petrificados
De que escrevo eu: do ovo.
Dos desgostos e da gordura que por eles se ganha,
do amor que consome, do prego e da corda,
das brigas a propósito do cabelo e da palavra a mais na sopa.
das arcas congeladoras, do que lhes sucedeu
quando a corrente deixou de passar.
De nós todos, sentados á mesa vazia após a refeição,
irei eu escrever;
e também de ti e de mim e da espinha na garganta.
in, “O Pregado”, Gunter Grass, Casa das Letras, Tradução Paulo Rêgo.
Friday, August 19, 2011
o que não é meu
“Só me interessa o que não é meu”
Oswald de Andrade
"Manifesto Antropófago(1928)
Foi publicado no primeiro exemplar da Revista de Antropofagia. Os exemplares desta publicação eram numerados como primeira dentição, segunda dentição, etc.
Este manifesto constitui-se numa síntese de alguns pensamentos do autor sobre o Modernismo Brasileiro. Inspirou-se explicitamente em Marx, em Freud, André Breton, Montaigne e Rousseau e atacava explicitamente a missionação, a herança portuguesa e o padre Antônio Vieira: Antes de os portugueses descobrirem o Brasil, o Brasil tinha descoberto a felicidade; Contra Goethe (que simboliza a cultura clássica europeia). Neste sentido, assina o manifesto como tendo sido escrito em Piratininga (nome indígena para a planície de onde viria a surgir a cidade de São Paulo), datando-o esclarecedoramente como ano 374, da Deglutição do Bispo Sardinha, o que denota uma recusa radical, simbólica e humorísticamente, do calendário gregoriano vigente. Por outro lado, a técnica de escrita explorada no Manifesto, bem como em todos os poemas mais significativos do autor antes e após este, aproximam-se mais das chamadas vanguardas positivas, mais construtivas que o Surrealismo de Breton e continuam propondo uma língua nacional diferente do português. O desejo de criar uma língua brasileira se manifestaria em sua obra, principalmente, por um vocabulário popular, explorando certos "desvios" do falante brasileiro (como sordado, mio, mió), intentando o "erro criativo". Este sonho somente se pareceria concretizar posteriormente, no entanto, na prosa de Guimarães Rosa e na poesia de Manoel de Barros.
Há várias ideias que estão implícitas neste manifesto, onde Oswald se expressa de maneira poética. Estas não são exploradas com o sistemático do seu amigo Mário de Andrade. Uma destas ideias é conhecida da antropofagia e tem a ver com o papel simbólico do canibalismo nas sociedades tribais/tradicionais. O canibal nunca come um ser humano por nutrição, mas sim sempre para incluir em si as qualidades do inimigo ou de alguém. Assim o canibalismo é interpretado como uma forma de veneração do inimigo. Se o inimigo tem valor então tem interesse para ser comido porque assim o canibal torna-se mais forte. Oswald atualiza este conceito no fundo expressando que a cultura brasileira é mais forte, é colonizada pelo europeu mas digere o europeu e assim torna-se superior a ele: Perguntei a um homem o que era o Direito. Ele me respondeu que era a garantia do exercício da possibilidade. Esse homem chamava-se Galli Matias. Comi-o.
Outra ideia avançada é a de que a maior revolução de todas vai se realizar no Brasil: Queremos a revolução Caraíba.
Outra ideia é a de que o Brasil, simbolizado pelo índio, absorve o estrangeiro, o elemento estranho a si, e torna-o carne da sua carne, canibaliza-o. Oswald. metaforicamente, recusa as religiões do meridiano que são aquelas de origem oriental e semita que deram origem ao cristianismo. Sendo a favor das religiões indígenas, com a sua relação direta com as forças cósmicas.
O manifesto insiste muito nas ideias de Totem e Tabu, expressas em um trabalho de Freud de 1912. Segundo Freud o Pai da tribo teria sido morto e comido pelos filhos e posteriormente divinizado. Tornado Totem e por isso mesmo sagrado, consequentemente criaram-se interdições à sua volta.
Citando o manifesto: Antropofagia. A transformação permanente do Tabu em totem. A antropofagia segundo Oswald é uma inversão do mito do bom selvagem de Rousseau, que era puro, inocente, edênico. O índio passa a ser mau e esperto, porque canibaliza o estrangeiro, digere-o, torna-o parte da sua carne. Assim o Brasil seria um país canibal. O que é um ponto de vista interessante porque subverte a relação colonizador/(ativo)/colonizado(passivo). O colonizado digere o colonizador. Ou seja, não é a cultura ocidental, portuguesa, europeia, branca, que ocupa o Brasil, mas é o índio que digere tudo o que lhe chega. E ao digerir e absorver as qualidades dos estrangeiros fica melhor, mais forte e torna-se brasileiro.
Assim o Manifesto Antropófago, embora seja nacionalista não é xenófobo, antes pelo contrário é xenofágico: Só me interessa o que não é meu. Lei do homem. Lei do antropófago.. Por isso, o antropófago Oswald seria um vanguardista, e teria sido o primeiro brasileiro, cronologicamente, a influenciar o movimento literário brasileiro de maior repercussão internacional, o concretismo, bem como, talvez indiretamente, ao poeta brasileiro mais aclamado nos círculos literários da atualidade, Manoel de Barros, o qual se diz um poeta da "vanguarda primitiva"."
copy, paste da Wikipedia
Oswald de Andrade
"Manifesto Antropófago(1928)
Foi publicado no primeiro exemplar da Revista de Antropofagia. Os exemplares desta publicação eram numerados como primeira dentição, segunda dentição, etc.
Este manifesto constitui-se numa síntese de alguns pensamentos do autor sobre o Modernismo Brasileiro. Inspirou-se explicitamente em Marx, em Freud, André Breton, Montaigne e Rousseau e atacava explicitamente a missionação, a herança portuguesa e o padre Antônio Vieira: Antes de os portugueses descobrirem o Brasil, o Brasil tinha descoberto a felicidade; Contra Goethe (que simboliza a cultura clássica europeia). Neste sentido, assina o manifesto como tendo sido escrito em Piratininga (nome indígena para a planície de onde viria a surgir a cidade de São Paulo), datando-o esclarecedoramente como ano 374, da Deglutição do Bispo Sardinha, o que denota uma recusa radical, simbólica e humorísticamente, do calendário gregoriano vigente. Por outro lado, a técnica de escrita explorada no Manifesto, bem como em todos os poemas mais significativos do autor antes e após este, aproximam-se mais das chamadas vanguardas positivas, mais construtivas que o Surrealismo de Breton e continuam propondo uma língua nacional diferente do português. O desejo de criar uma língua brasileira se manifestaria em sua obra, principalmente, por um vocabulário popular, explorando certos "desvios" do falante brasileiro (como sordado, mio, mió), intentando o "erro criativo". Este sonho somente se pareceria concretizar posteriormente, no entanto, na prosa de Guimarães Rosa e na poesia de Manoel de Barros.
Há várias ideias que estão implícitas neste manifesto, onde Oswald se expressa de maneira poética. Estas não são exploradas com o sistemático do seu amigo Mário de Andrade. Uma destas ideias é conhecida da antropofagia e tem a ver com o papel simbólico do canibalismo nas sociedades tribais/tradicionais. O canibal nunca come um ser humano por nutrição, mas sim sempre para incluir em si as qualidades do inimigo ou de alguém. Assim o canibalismo é interpretado como uma forma de veneração do inimigo. Se o inimigo tem valor então tem interesse para ser comido porque assim o canibal torna-se mais forte. Oswald atualiza este conceito no fundo expressando que a cultura brasileira é mais forte, é colonizada pelo europeu mas digere o europeu e assim torna-se superior a ele: Perguntei a um homem o que era o Direito. Ele me respondeu que era a garantia do exercício da possibilidade. Esse homem chamava-se Galli Matias. Comi-o.
Outra ideia avançada é a de que a maior revolução de todas vai se realizar no Brasil: Queremos a revolução Caraíba.
Outra ideia é a de que o Brasil, simbolizado pelo índio, absorve o estrangeiro, o elemento estranho a si, e torna-o carne da sua carne, canibaliza-o. Oswald. metaforicamente, recusa as religiões do meridiano que são aquelas de origem oriental e semita que deram origem ao cristianismo. Sendo a favor das religiões indígenas, com a sua relação direta com as forças cósmicas.
O manifesto insiste muito nas ideias de Totem e Tabu, expressas em um trabalho de Freud de 1912. Segundo Freud o Pai da tribo teria sido morto e comido pelos filhos e posteriormente divinizado. Tornado Totem e por isso mesmo sagrado, consequentemente criaram-se interdições à sua volta.
Citando o manifesto: Antropofagia. A transformação permanente do Tabu em totem. A antropofagia segundo Oswald é uma inversão do mito do bom selvagem de Rousseau, que era puro, inocente, edênico. O índio passa a ser mau e esperto, porque canibaliza o estrangeiro, digere-o, torna-o parte da sua carne. Assim o Brasil seria um país canibal. O que é um ponto de vista interessante porque subverte a relação colonizador/(ativo)/colonizado(passivo). O colonizado digere o colonizador. Ou seja, não é a cultura ocidental, portuguesa, europeia, branca, que ocupa o Brasil, mas é o índio que digere tudo o que lhe chega. E ao digerir e absorver as qualidades dos estrangeiros fica melhor, mais forte e torna-se brasileiro.
Assim o Manifesto Antropófago, embora seja nacionalista não é xenófobo, antes pelo contrário é xenofágico: Só me interessa o que não é meu. Lei do homem. Lei do antropófago.. Por isso, o antropófago Oswald seria um vanguardista, e teria sido o primeiro brasileiro, cronologicamente, a influenciar o movimento literário brasileiro de maior repercussão internacional, o concretismo, bem como, talvez indiretamente, ao poeta brasileiro mais aclamado nos círculos literários da atualidade, Manoel de Barros, o qual se diz um poeta da "vanguarda primitiva"."
copy, paste da Wikipedia
Gini Europe
The Gini coefficient is a number from 0 to 1 representing the equality or inequality of income distribution in an economy; 0 is theoretical absolute equality, and 1 is one person having everything and everyone going without. In practice, it varies from about 0.2 to about 0.7.
According to it, Europe ranges from the mid-.20s to the high .30s, with a few outliers in the low 40s. At the most egalitarian end, unsurprisingly, are the Jante states of Denmark and Sweden, as well as Iceland (perhaps surprisingly, if it's meant to have been an experiment in cut-throat neoliberalism). Things get more inequitous into Norway, Finland, France, Germany and Switzerland (which stays under .28, despite being home to a lot of the global super-rich), and then on to Italy, Spain, Britain and Ireland, and beyond that, Poland and Lithuania. The most unequal country in Europe is Turkey, which has a Gini coefficient of 0.436, somewhere between Guyana and Nigeria, or, if you prefer, Delaware and Hawaii.
found here : http://dev.null.org/blog/item/200904210031_ginieuroa
true story
A Story
by Philip Levine
Everyone loves a story. Let's begin with a house.
We can fill it with careful rooms and fill the rooms
with things—tables, chairs, cupboards, drawers
closed to hide tiny beds where children once slept
or big drawers that yawn open to reveal
precisely folded garments washed half to death,
unsoiled, stale, and waiting to be worn out.
There must be a kitchen, and the kitchen
must have a stove, perhaps a big iron one
with a fat black pipe that vanishes into the ceiling
to reach the sky and exhale its smells and collusions.
This was the center of whatever family life
was here, this and the sink gone yellow
around the drain where the water, dirty or pure,
ran off with no explanation, somehow like the point
of this, the story we promised and may yet deliver.
Make no mistake, a family was here. You see
the path worn into the linoleum where the wood,
gray and certainly pine, shows through.
Father stood there in the middle of his life
to call to the heavens he imagined above the roof
must surely be listening. When no one answered
you can see where his heel came down again
and again, even though he'd been taught
never to demand. Not that life was especially cruel;
they had well water they pumped at first,
a stove that gave heat, a mother who stood
at the sink at all hours and gazed longingly
to where the woods once held the voices
of small bears—themselves a family—and the songs
of birds long fled once the deep woods surrendered
one tree at a time after the workmen arrived
with jugs of hot coffee. The worn spot on the sill
is where Mother rested her head when no one saw,
those two stained ridges were handholds
she relied on; they never let her down.
Where is she now? You think you have a right
to know everything? The children tiny enough
to inhabit cupboards, large enough to have rooms
of their own and to abandon them, the father
with his right hand raised against the sky?
If those questions are too personal, then tell us,
where are the woods? They had to have been
because the continent was clothed in trees.
We all read that in school and knew it to be true.
Yet all we see are houses, rows and rows
of houses as far as sight, and where sight vanishes
into nothing, into the new world no one has seen,
there has to be more than dust, wind-borne particles
of burning earth, the earth we lost, and nothing else.
by Philip Levine
Everyone loves a story. Let's begin with a house.
We can fill it with careful rooms and fill the rooms
with things—tables, chairs, cupboards, drawers
closed to hide tiny beds where children once slept
or big drawers that yawn open to reveal
precisely folded garments washed half to death,
unsoiled, stale, and waiting to be worn out.
There must be a kitchen, and the kitchen
must have a stove, perhaps a big iron one
with a fat black pipe that vanishes into the ceiling
to reach the sky and exhale its smells and collusions.
This was the center of whatever family life
was here, this and the sink gone yellow
around the drain where the water, dirty or pure,
ran off with no explanation, somehow like the point
of this, the story we promised and may yet deliver.
Make no mistake, a family was here. You see
the path worn into the linoleum where the wood,
gray and certainly pine, shows through.
Father stood there in the middle of his life
to call to the heavens he imagined above the roof
must surely be listening. When no one answered
you can see where his heel came down again
and again, even though he'd been taught
never to demand. Not that life was especially cruel;
they had well water they pumped at first,
a stove that gave heat, a mother who stood
at the sink at all hours and gazed longingly
to where the woods once held the voices
of small bears—themselves a family—and the songs
of birds long fled once the deep woods surrendered
one tree at a time after the workmen arrived
with jugs of hot coffee. The worn spot on the sill
is where Mother rested her head when no one saw,
those two stained ridges were handholds
she relied on; they never let her down.
Where is she now? You think you have a right
to know everything? The children tiny enough
to inhabit cupboards, large enough to have rooms
of their own and to abandon them, the father
with his right hand raised against the sky?
If those questions are too personal, then tell us,
where are the woods? They had to have been
because the continent was clothed in trees.
We all read that in school and knew it to be true.
Yet all we see are houses, rows and rows
of houses as far as sight, and where sight vanishes
into nothing, into the new world no one has seen,
there has to be more than dust, wind-borne particles
of burning earth, the earth we lost, and nothing else.
Monday, August 15, 2011
the god of imagination
"The god of the imagination is the imagination. The law of the imagination is, whatever works. The law of the imagination is not universal truth, but the work's truth, fought for and won."
Salman Rushdie, The ground beneath her feet
Sunday, August 14, 2011
Sabugueiro
Brancas são as flores,
verdes as bagas,
que o sol do estio amadurece.
Quando as manhãs esfriam e a noite mais cedo cai
com carinho as bagas colhes,
amorosamente fazes o xarope,
com que irás perfumar o letal chá
que usas para aquecer o frio inverno.
this is the Times
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QUOTATION OF THE DAY
"I remember quite clearly one of my middle-school teachers telling me that I was a stone with sharp, jagged edges, but that I would turn into a smooth river stone as I grew older. During the years while I was making this film, I felt like I was getting sharper and sharper instead."
ZHAO LIANG, a filmmaker, on "Petition," a documentary that angered the Chinese government.
QUOTATION OF THE DAY
"I remember quite clearly one of my middle-school teachers telling me that I was a stone with sharp, jagged edges, but that I would turn into a smooth river stone as I grew older. During the years while I was making this film, I felt like I was getting sharper and sharper instead."
ZHAO LIANG, a filmmaker, on "Petition," a documentary that angered the Chinese government.
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