Friday, March 30, 2012
Monday, March 26, 2012
é o pôr do sol na minha cozinha
é o pôr do sol na minha cozinha,
mais um dia que acaba
penso no que vou fazer,
até que a noite me envolva.
no escuro crescemos, no escuro muito acontece
as coisas mudam e medram, renovam-se
a Terra repõe o nosso sustento
novos frutos, nova seiva, pão fresco na nossa mesa.
tudo é mistério - nem ciência nem fé
o mistério da vida, descobre-se como a faca a maçã,
com gestos medidos.
Friday, March 23, 2012
Friday, March 16, 2012
do Livro do Desassossego
"Há só um presente imóvel com um muro de angústia em torno. A margem de lá do rio nunca, enquanto é a de lá, é a de cá; e é esta a razão íntima de todo o meu sofrimento. Há barcos para muitos portos, mas nenhum para a vida não doer, nem há desembarque onde se esqueca. Tudo isto aconteceu há muito tempo, mas a minha mágoa é mais antiga."
Santa Apolónia
Os nossos passos carregados de cansaços...
Muitas vezes em tom jocoso quando alguém me pergunta se não tenho medo de que alguma coisa me faça mal, pergunto de volta : "- E eu quero lá morrer saudável ?!...".
A verdade é que todos sonhamos com uma hora doce e breve, de preferência sem a consciência dela...
Todos queremos uma vida longa, saudável e cheia de alegrias, de termos pessoas queridas felizes à nossa volta até ao fim...não sei de outros quereres, mas que os devem existir, devem, somos tão diversos uns dos outros...
Aos prisioneiros de seus corpos mortos, penso que sendo sua vontade firme partir, lhes seja concedida essa última vontade.
Wednesday, March 14, 2012
Cais das memórias
A memória de cada um de nós, está viva e é o repositório de todos os nossos sonhos.
Devidamente convocada numa liturgia ainda por cima encenada no seu habitat, torna-se numa celebração colectiva, acordando consciências e entidades - das mais singelas ás demiúrgicas.
Em Alhandra aconteceu, a 10 e 11 de Março e chamou-se Cais 14.
(Penso que não seja repetível, mas é seguramente passível de ser (re)despertado).
Monday, March 12, 2012
Friday, March 9, 2012
Wednesday, March 7, 2012
Nature is over
Johannes Mann / Corbis
As árvores são seres fantásticos : num sitio lançam raízes e aí ficam até morrer ou serem abatidas e levadas para outro uso - sim porque nem mortas, elas abandonam o seu lugar.
Privadas da mobilidade individual as árvores, só podem viajar multiplicando--se, as suas sementes galgam distâncias e chegam mesmo a continentes para lá do mar, criando aí novas colónias.
O que é constante é o seu valor, o que elas dão e significam para este planeta e todos os seus seres. Na história da Terra as árvores podem ser apenas intérpretes duma fase que como outras passará, mas são determinantes para a vida tal como a conhecemos…pelo menos para a nossa vida, são.
Penso que em todas as religiões, o ungido, o profeta, passa a sua fase de árvore : recolhe-se a um local longamente e aí aprofunda o seu credo. Consolidado e articulado este, pode deixar então a sua vida de árvore e espalhar as sementes, o tempo e as circunstâncias farão o resto.
As árvores são seres fantásticos : num sitio lançam raízes e aí ficam até morrer ou serem abatidas e levadas para outro uso - sim porque nem mortas, elas abandonam o seu lugar.
Privadas da mobilidade individual as árvores, só podem viajar multiplicando--se, as suas sementes galgam distâncias e chegam mesmo a continentes para lá do mar, criando aí novas colónias.
O que é constante é o seu valor, o que elas dão e significam para este planeta e todos os seus seres. Na história da Terra as árvores podem ser apenas intérpretes duma fase que como outras passará, mas são determinantes para a vida tal como a conhecemos…pelo menos para a nossa vida, são.
Penso que em todas as religiões, o ungido, o profeta, passa a sua fase de árvore : recolhe-se a um local longamente e aí aprofunda o seu credo. Consolidado e articulado este, pode deixar então a sua vida de árvore e espalhar as sementes, o tempo e as circunstâncias farão o resto.
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Tuesday, March 6, 2012
Alegria
Algumas pessoas não toleram a alegria - como algumas têm intolerância à lactose ou ao glúten, outras não conseguem processar a alegria…
Nalgumas a intolerância é tal, que se agrupam em hordas e vão em bando partindo tudo o que lhes aparece pela frente, injuriando e maltratando quem tem o infortúnio de se cruzar com eles.
Se lhes perguntarem, responderão que estão alegres.
Wednesday, February 29, 2012
Tuesday, February 28, 2012
Wednesday, February 15, 2012
God, A Poem
God, A Poem
A nasty surprise in a sandwich,
A drawing-pin caught in your sock,
The limpest of shakes from a hand which
You'd thought would be firm as a rock,
A serious mistake in a nightie,
A grave disappointment all round
Is all that you'll get from th'Almighty,
Is all that you'll get underground.
Oh he said: 'If you lay off the crumpet
I'll see you alright in the end.
Just hang on until the last trumpet.
Have faith in me, chum-I'm your friend.'
But if you remind him, he'll tell you:
'I'm sorry, I must have been pissed-
Though your name rings a sort of a bell. You
Should have guessed that I do not exist.
'I didn't exist at Creation,
I didn't exist at the Flood,
And I won't be around for Salvation
To sort out the sheep from the cud-
'Or whatever the phrase is. The fact is
In soteriological terms
I'm a crude existential malpractice
And you are a diet of worms.
'You're a nasty surprise in a sandwich.
You're a drawing-pin caught in my sock.
You're the limpest of shakes from a hand which
I'd have thought would be firm as a rock,
'You're a serious mistake in a nightie,
You're a grave disappointment all round-
That's all you are, ' says th'Almighty,
'And that's all that you'll be underground.'
1983
James Fenton
A nasty surprise in a sandwich,
A drawing-pin caught in your sock,
The limpest of shakes from a hand which
You'd thought would be firm as a rock,
A serious mistake in a nightie,
A grave disappointment all round
Is all that you'll get from th'Almighty,
Is all that you'll get underground.
Oh he said: 'If you lay off the crumpet
I'll see you alright in the end.
Just hang on until the last trumpet.
Have faith in me, chum-I'm your friend.'
But if you remind him, he'll tell you:
'I'm sorry, I must have been pissed-
Though your name rings a sort of a bell. You
Should have guessed that I do not exist.
'I didn't exist at Creation,
I didn't exist at the Flood,
And I won't be around for Salvation
To sort out the sheep from the cud-
'Or whatever the phrase is. The fact is
In soteriological terms
I'm a crude existential malpractice
And you are a diet of worms.
'You're a nasty surprise in a sandwich.
You're a drawing-pin caught in my sock.
You're the limpest of shakes from a hand which
I'd have thought would be firm as a rock,
'You're a serious mistake in a nightie,
You're a grave disappointment all round-
That's all you are, ' says th'Almighty,
'And that's all that you'll be underground.'
1983
James Fenton
Monday, February 13, 2012
O voyeur
Gosto das tuas pernas grossas a aparecerem debaixo das calças arregaçadas
Gosto da forma como os teus pés descalços se agarram ao chão
No principio vivemos em equilíbrio agarrados à firmeza das nossas convicções
Um dia resultado de um movimento natural descobrimo-nos com outro ponto de vista
Os nossos corpos são como barcos à vela navegando ventos inconstantes
Nós e a nossa doença mantemos um equilíbrio, desfeito este será a nossa morte
O teu corpo forte, a tua postura exigente, o teu humor seco
Tudo isso cai perante a finura das tuas mãos, elas traem-te…bem como uma certa luz
Que vem com o teu sorriso. Nada disto importa, tudo isto é rapidamente esquecido
Como velhas fechaduras roídas pela ferrugem, já sem portas para abrir.
This Be the Verse
This Be the Verse
By Philip Larkin 1922–1985
They fuck you up, your mum and dad.
They may not mean to, but they do.
They fill you with the faults they had
And add some extra, just for you.
But they were fucked up in their turn
By fools in old-style hats and coats,
Who half the time were soppy-stern
And half at one another’s throats.
Man hands on misery to man.
It deepens like a coastal shelf.
Get out as early as you can,
And don’t have any kids yourself.
Philip Larkin, “This Be the Verse” from Collected Poems.
Thursday, February 9, 2012
Tuesday, February 7, 2012
Monday, February 6, 2012
A promessa
Reluzindo o equipamento novo, ele espera encostado à baliza o inicio do treino, vai retesando os músculos das pernas, gosta de mostrar como estão definidos, todo o trabalho de ginásio que fez para os ter assim. Vem das camadas jovens de um clube da capital, parece que teve uns apontamentos promissores e agora está aqui para rodar, ganhar minutos, experiência.
Aplica-se nos treinos de inicio de época e os adeptos atentos vão falando dele, é uma das esperanças para a época que se avizinha. O clube espera um bom desempenho neste campeonato, talvez uma promoção e conta-se com ele.
O primeiro jogo foi fora e nada correu bem…muita gente nova, pouco entrosamento, os outros foram melhores e ganharam bem.
Primeiro jogo em casa, a promessa tem entradas de leão, faz umas corridas fortes, tem mesmo um remate intencional, saiu ao lado, enfim…que pena aquela lesão pouco antes do intervalo…
Ainda vai regressar durante a primeira volta, mas a coisa não corre bem de novo, entrou nos últimos minutos de um par de jogos e quando voltou à titularidade lá se lesionou outra vez…Quando a época acaba poucos se lembram dele, a equipa teve altos e baixos, ficou a meio da tabela, para o ano haverá um novo financiador e a coisa será melhor acham os adeptos. Ele foi só uma promessa cara que não deu em nada, foi mais o tempo que passou no ginásio e no posto médico do que no campo.
Para o ano lá vai ele repetir o ciclo para novo clube, enquanto os ecos dos seus apontamentos de juventude durarem e os clubes da província ainda o queiram, a história vai-se repetindo…Até que mesmo a ele se acabe a vontade de andar a mostrar os músculos das pernas antes dos treinos, em campos cada vez mais rascas, cada vez mais longe, sítios onde os adeptos vão ao campo pelo bar, não pelos jogadores…
Então voltará ao estádio do clube original, onde tentará ser reconhecido por colegas do seu tempo, tentará contar histórias aos adeptos, basicamente passará a fazer parte da cor do local.
Os adeptos mais velhos dirão entre si quando ele chega :
“-Foi uma promessa, mas não deu em nada…”.
Aplica-se nos treinos de inicio de época e os adeptos atentos vão falando dele, é uma das esperanças para a época que se avizinha. O clube espera um bom desempenho neste campeonato, talvez uma promoção e conta-se com ele.
O primeiro jogo foi fora e nada correu bem…muita gente nova, pouco entrosamento, os outros foram melhores e ganharam bem.
Primeiro jogo em casa, a promessa tem entradas de leão, faz umas corridas fortes, tem mesmo um remate intencional, saiu ao lado, enfim…que pena aquela lesão pouco antes do intervalo…
Ainda vai regressar durante a primeira volta, mas a coisa não corre bem de novo, entrou nos últimos minutos de um par de jogos e quando voltou à titularidade lá se lesionou outra vez…Quando a época acaba poucos se lembram dele, a equipa teve altos e baixos, ficou a meio da tabela, para o ano haverá um novo financiador e a coisa será melhor acham os adeptos. Ele foi só uma promessa cara que não deu em nada, foi mais o tempo que passou no ginásio e no posto médico do que no campo.
Para o ano lá vai ele repetir o ciclo para novo clube, enquanto os ecos dos seus apontamentos de juventude durarem e os clubes da província ainda o queiram, a história vai-se repetindo…Até que mesmo a ele se acabe a vontade de andar a mostrar os músculos das pernas antes dos treinos, em campos cada vez mais rascas, cada vez mais longe, sítios onde os adeptos vão ao campo pelo bar, não pelos jogadores…
Então voltará ao estádio do clube original, onde tentará ser reconhecido por colegas do seu tempo, tentará contar histórias aos adeptos, basicamente passará a fazer parte da cor do local.
Os adeptos mais velhos dirão entre si quando ele chega :
“-Foi uma promessa, mas não deu em nada…”.
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