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Thursday, May 6, 2010

Hoje o rio...




Hoje o rio corre calmo, como se não fosse nada com ele.
Graças a Deus pelo perfume francês !
Vi pela janela do escritório, dois presos a entrarem algemados para o carro celular. Jovens, vestidos como músicos de hip-hop, negros de cabelos lisos e pintados, refulgindo quando tocados pela luz, corpos de felino.
Um ar de leveza e perigo nos seus movimentos, meigos e brincalhões, mas letais, como grandes gatos.
(continua)

Thursday, March 25, 2010

morning glory




Não sei, nem quero falar do PEC - descobri que gosto de falar da resistência e principalmente dos resistentes ou das resistentes. É verdade que olho mais para elas, a verdade também é que sem dúvida, elas partilham muito mais.
Uma moça com uma usada agenda cultural na mão, joga com graça com o preto e o vermelho : sapatos e mala vermelhos, como o bâton, negros os cabelos, os leggings, mini-saia pied de coq e blusão cinza escuro. Urban chic.
No Metro quando levanto os olhos da leitura, deparo com uma dama africana adormecida, bela e profunda, perfeita boca de lábios carnudos. O sono dá-lhe um abandono tocante, que o peso do meu olhar (dommage), acaba por interromper - ou talvez tenha sido apenas o ruído do comboio que a tenha sobressaltado.
Lembro-me de um projecto que pensei há uns tempos : fotografar pessoas com o telemóvel, perguntar-lhes o nome, a idade, dizer-lhes que seria para publicar num blog se queriam acrescentar algo, tudo muito espontâneo e rápido...Não tenho coragem, nem disponibilidade para o fazer, pelo menos por agora.

Wednesday, March 24, 2010

bittersweet



A rapariga mais bonita do edifício inteiro falou comigo e sorriu.
Continuo a acreditar naquilo que as pessoas dizem, a acreditar em que se sorrirem para nós, mostrarem-nos boa cara, tudo está bem. Afinal parece que não é assim, existem o tacto e as circunstâncias, e eu sou insensível ao tacto e as circunstâncias passam por mim, sem que eu me aperceba delas.
Devia crescer eu sei, agarrar-me a coisas tangíveis, como o faz decerto, a senhora de belos olhos azuis desta manhã, com uma dupla aliança de ouro no dedo.

Monday, March 22, 2010

Primavera

A moça elegante subiu a gola do casaco quando sentiu o meu olhar, ou apenas decidiu erguer mais uma barreira entre ela e o universo ao seu redor?
A senhora com quem me cruzo na passadeira leva uns sapatos de plataforma, com apliques de pele, perfeitos para uma stripper executando a sua dança no varão.
Está perfeito o dia, agora que oficialmente é Primavera, ontem que foi Domingo por todo o lado se viam casalinhos de namorados, muito agarradinhos, cedendo à força do seu desejo (alinhado claro com as forças cósmicas do vasto Universo).
Os beijos, os pássaros a cantar, mais o a chapinhar do Sol nas muitas águas correndo por todo o lado, enchem de pujança a vida e nada parece em crise.
Alguém devia decifrar o código das árvores e das plantas, o que as torna resistentes ao mais feroz Inverno e as faz vencedoras todas as Primaveras. Alguém devia fazer isso, em vez de nos querer estragar o dia, com as tretas do costume.

Friday, March 19, 2010

bom conservador


Lisboa, mesmo à bocado

Gosto da ideia da constância, do Kant a passar sempre na mesma rua, à mesma hora, tão pontual que os vizinhos podiam acertar os relógios por ele. Pessoas assim constituem o cimento do mundo, são os seus verdadeiros alicerces.
Nos jornais fala-se da debandada de funcionários públicos dos serviços, incluindo médicos, pessoas com uma carreira feita e paga pelo Estado e que agora aproveitam as circunstâncias para se reformarem vantajosamente e prosseguirem vida activa nos mesmos locais, ou no sector privado. Quem os pode censurar ? São assim as coisas, o vizinho do lado tira proveito, porque não nós ? Já não há bons samaritanos, no fundo são direitos que conquistámos com décadas de trabalho, ou não ?!
Depois existe toda a não-comunicação da burocracia - estatutos e regras especiais, tais como : "quem tiver 55 anos de idade e 30 anos de serviço, tem direito a tal", estando escrito assim quem tiver mais anos serviço ou mais anos de idade já não tem direito à regalia, isto é absurdo ou não ? Isto convida a que se responda na mesma moeda ou não ?
Ontem elogiei um cartaz do Bloco de Esquerda, hoje manifesto a minha irritação por outro : um pai Natal com uma venda no olho "à pirata" convida-nos a partilhar os nossos ficheiros e eu pergunto : então e a propriedade intelectual ? O trabalho de artistas, autores e cientistas não merece respeito, deve ser oferecido à comunidade sem contrapartidas ?
O governo avança com o Plano de Estabilidade e Crescimento(PEC) - basicamente atrás do acrónimo esconde-se a baixa das expectativas e do modo de vida das classes médias para os próximos anos. Mais ainda, reduz, o que chega a raiar a obscenidade as prestações sociais, incluindo o subsidio de desemprego...
Já que é do dinheiro de todos que se trata aqui, interrogamo-nos como foi possível mobilizarem-se tão rapidamente fundos e vontades para salvar bancos e fundos e agora que da economia real se trata, é tão fácil fazer os de sempre amargar com as custas da crise financeira e imobiliária...Same old story.
O mundo está desequilibrado e as assimetrias com a globalização a funcionar como activador do principio dos vasos comunicantes, torna-se num grande nivelador para as classes médias da Terra. Contudo esta nivelação está a fazer-se por baixo e algumas conquistas humanas fundamentais conseguidas no Ocidente durante o século XX vão sendo postas em causa, nas sociedades mesmas onde primeiro foram alcançadas.
Os nossos filhos estão condenados a padrões de consumo de bens materiais muito diferentes dos nossos, isto não tem de ser necessariamente um mal, constitui uma oportunidade imensa de mudar a sociedade, de mudar as vidas de todos, salvar o planeta da nossa sobre exploração vertiginosa.
Não podemos continuar a viver é sobre estas ditaduras de funcionários que se auto-promovem, de políticos que nascem e se retiram nessas sinecuras, de gestores sem ética promovidos a donos do mundo.
Acho que gostar da constância faz de mim um bom conservador.

Thursday, March 18, 2010

como conseguimos chegar à América


Eu gosto de pessoas, fico fascinado a olhar para elas...discretamente, claro.
Ainda hoje no Metro, em frente a mim sentou-se uma verdadeira encarnação de Lolita - blusa verde primaveril, a deixar ver toda a sua fresca feminilidade, num arrojo bem generoso. Grandes auscultadores amarelos nos ouvidos, sublinhavam a sua tenra idade e animavam ainda mais o seu aspecto.
Levanto-me e acima de todas as cabeças, destaca-se um moço, corta-vento preto sob um blusão de ganga gasta, calças de caqui corte aventura, o verdadeiro homem Malboro, enfrentando os desfiladeiros da grande cidade. Mais ao lado, uma moça, soberba composição : sobretudo negro, calças e sapatos castanhos, tudo de corte masculino.
Cabelo pintado de louro, muito curto colado à cabeça, como um jovem oficial (ou o Bowie dos anos de Berlim). Toque final : mala de mão e cachecol femininos e coloridos, é mesmo uma rapariga, e eu fico contente.
Como vêem eu gosto mesmo de pessoas, observo-as desde sempre.
Ontem à noite passeava junto ao rio, quando um bando de pássaros se levantou em alvoroço...lindos, nem sabia que andavam aqui pelo rio. Alguém disparava sobre eles protegido pela escuridão do cais, só o riso idiota os traía, isso e o estampido seco da arma de pressão de ar que usavam.
Uns dias antes, também à noite, num local onde as boas almas deixam comida para os gatos da rua, dois miúdos olham para nós com um riso idiota enquanto passamos, um deles tem um tubo através do qual sopra pedras com que magoa os gatos e os impede de chegarem à comida. A minha mulher tenta convencê-los a terem pena dos animais famintos, a procurarem um divertimento melhor, eles ficam-se imóveis, com o mesmo riso idiota nas caras, a esperar que dobremos a esquina e eles possam continuar a fazer mal porque sim.
Ás vezes, abate-se um desespero sobre mim e fica difícil continuar a acreditar nas pessoas.
Lembro-me então de coisas como a maneira como conseguimos chegar à América e acredito de novo...
(Fazendo cada vez mais longas navegações pelas costas de África, aperfeiçoando os barcos e os conhecimentos de ventos e correntes, aprendendo a navegar longe da costa, descobrindo ilhas e depois tendo todos estes apoios, acreditar e dar um salto maior).
Ainda hoje, podemos ser assim, mas de outras formas completamente erradas também.
No fim é sempre uma escolha de cada um que decide onde se chega.

Tuesday, January 12, 2010

Primo Benjamim



Chego ao largo da vila, parece-me ver o meu primo Benjamim sentado num dos bancos, como costumava estar - falando com amigos ou simplesmente a deixar-se estar, a ver passar as pessoas.
Dos sobrinhos do meu avô Francisco, o meu primo Benjamim era o que mais ares lhe dava, mesmo nos gestos, homens cientes do seu lugar, mas também prontos para a bonomia, uma pândega com amigos, mas respeito, claro, nada de começar logo com confianças.
O meu primo era calafate, acho que no estaleiro do Higino enquanto este funcionou, depois um pouco por onde fosse preciso, pelas margens do Tejo, a fazer biscates para quem pedia.
Agora já não são precisos calafates no Tejo, agora também já não podia ser o meu primo Benjamim ali no largo – já morreu o meu primo, como muito antes dele tinha morrido o meu avô Francisco, com quem ele era parecido.
Que ideia, lembrar-me assim de um primo morto, obreiro de uma profissão também desaparecida e um arrepio percorreu-me...


*Um calafate, é um operário especializado na vedação com estopa alcatroada das juntas entre as tábuas com que são feitos os barcos.


"O Calafate"

António Maria Eusébio nasceu a 6 de Dezembro de 1820, numa casa da antiga rua dos Marmelinhos que, uma artéria que, de resto, hoje está baptizada com o seu nome.
António Maria Eusébio, também apelidado de 'O Calafate', teve a glória de ser cantado, ainda em vida, por Guerra Junqueiro que acerca dele escreveu: "Por mais de meio século, ao ritmo de teu macete que martelava no escopro, aparelhaste barcos e canções: barcos - levando esperança e misérias; canções, levando lágrimas e risos. E que são barcos senão harmonias flutuantes. Uns em águas cristalinas, deslizam como idílios; outros como epopeias sulcam voragens e tormentas".
"Não sabendo ler nem escrever, és um grande Poeta meu ignorante e ignorado 'Cantor' de Setúbal. Os grandes poetas são os grandes homens e a grandeza humana aos olhos de Deus mede-se pela virtude, pela inocência, pelo juízo verdadeiro da nossa alma, pela ternura infantil do nosso coração. Ora a tua bondade, meu velho, exala-se das tuas cantigas sem arte, como um aroma delicioso dum matagal inculto que nasceu entre pedras".
"O Calafate" deixou uma vasta obra poética cheia do maior interesse, graça, e, por vezes, beleza. Foi o tipo mais popular de Setúbal, na segunda metade do século XIX – primeira dezena do século XX.
Faleceu em 22 de Novembro de 1911 com 91 anos menos quinze dias, de idade.